Comunicar criando e a arte de crescer

 

“Criar é dar forma a alguma coisa e toda a forma é forma de comunicação ao mesmo tempo que é forma de realização.”

(Fayga Ostrowe)

 

Para Fayga Ostrower, a natureza criativa do homem elabora-se no contexto cultural, regido pela sua realidade social, com necessidades e valores culturais que moldam os próprios valores de vida. Assim, num indivíduo, confrontam-se dois polos de uma mesma relação; a sua criatividade que representa as potencialidades de um ser único, e a sua criação que será a realização dessas potencialidades já dentro do quadro de determinada cultura. “O consciente racional nunca se desliga das atividades criadoras; constitui um fator fundamental de elaboração. Retirar o consciente da criação seria mesmo inadmissível, seria retirar uma das dimensões humanas”.

Fayga considerava que o homem contemporâneo vive alienado de si mesmo, de seu trabalho, das suas possibilidades de criar e de realizar na sua vida conteúdos mais humanos. Em vez de se integrar como ser individual, o ser humano sofre um processo de desintegração confrontando-se com as múltiplas funções que deve exercer, pressionado por múltiplas exigências e bombardeado pelo fluxo ininterrupto de informações contraditórias, em aceleração crescente que quase ultrapassa o ritmo orgânico da sua vida.

Além da linguagem verbal, a nossa capacidade de comunicar conteúdos expressivos expande-se por outras formas de comunicação simbólica. Aliás, se remontarmos às origens, apercebemo-nos da nossa capacidade de comunicarmos por meio de ordenações, isto é, através de FORMAS.

 

“No que o homem faz, imagina, compreende, ele o faz ordenando. Se a fala representa um modo de ordenar, o comportamento também é ordenação. A pintura é ordenação, a arquitetura, a música, a dança, ou qualquer outra prática significante. São ordenações, linguagens, formas; apenas não são formas verbais.”

(Fayga Ostrower)

Célestin Freinet, crítico da escola tradicional e das escolas novas, criou em França o movimento da escola moderna, com o objetivo básico de desenvolver uma escola popular. Freinet defendia uma aprendizagem pela experiência e chama mesmo de infeliz a educação que pretende, pela explicação teórica, fazer crer aos indivíduos que podem ter acesso ao conhecimento pelo conhecimento e não pela experiência. A assim ser, apenas produziria doentes do corpo e do espírito, falsos intelectuais inadaptados, homens incompletos e impotentes.

 

 

A Formação Social da mente de Vigotsky expõe os aspetos do comportamento humano ao longo do seu desenvolvimento.

Kohler e Buhler concluíram nas suas experiências que a inteligência é independente da fala pois mesmo as crianças que ainda não falam são capazes de resolver alguns problemas, sem o apoio da linguagem.

Por meio de gestos, a criança compensa a sua dificuldade em comunicar através da fala, utilizando fatores internos e externos para se adaptar e superar dificuldades encontradas.

Muitas vezes, o ser humano, confrontando-se com dificuldades, faz uso de objetos neutros, dando-lhes um significado para além da sua própria funcionalidade.

Na comunicação fazemos uso de variadíssimas técnicas e formas, devendo estar atentos a todas, para uma leitura e análise mais completas e melhor perceção da realidade.

 

A expressão não verbal existe desde sempre. Mesmos os povos mais primitivos, ainda não conhecendo a escrita, expressavam-se de forma não verbal, através de gravuras, desenhos e pinturas que faziam nas paredes do interior das cavernas, assim como através das esculturas em marfim, osso e pedra, segundo João Bucho.

 

“Tudo aquilo que sente, pense e sabe pode ser expresso através de múltiplas formas de linguagem, pelo olha, pelo movimento, gesto, riso, mímica, desenho, pintura, modelagem, escultura, pelo teatro, pela música, pela dança, pela escrita e poesia.”

(João Bucho)

 

Segundo Eurico Gonçalves (1991), um dos primeiros a defender a expressão livre em Portugal, “a criança revela-se através do que faz, pelo que os seus desenhos, pinturas e objetos devem ser observados com seriedade e não com falsas apreciações ou exageradas manifestações de êxtase, deceção ou indiferença”.

No seu livro “A arte descobre a criança”, Eurico Gonçalves ajuda-nos a perceber como a arte infantil é de extrema importância para o desenvolvimento da criança e consequentemente um adulto saudável. Nele destaca-se uma entrevista a Arno Stern, na qual explica o que significa para si a expressão: “É algo que vem do interior, das entranhas, do mais profundo do ser… é expulsar, exteriorizar sensações, sentimentos, um conjunto de factos emotivos. Como educador, crio condições para que este ato se realize o mais espontaneamente possível.”

Para Eurico, arte é uma forma de crescer.

 

“Arte é linguagem; é um meio de expressão e comunicação e por isso tem deixado um traço ao longo da história humana. Todavia, para além da sua função estética e social, a arte poderá também ter uma função terapêutica. A arte como fazer, como conhecer ou como exprimir. “

(Maria Antónia Jardim)

 

Maria Antónia Jardim diz que a arte permite-nos ir além do que nos é manifestamente visível, funcionando como um espelho onde podemos captar algo que nos era desconhecido.

 

Um único movimento, ou uma sequência de movimentos, deve revelar, ao mesmo tempo, o caráter de quem o realiza, o fim pretendido, os obstáculos exteriores e os conflitos interiores que nascem deste esforço.

(Laban)mi

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